Evangelho
segundo S. Mateus 8,23-27.
Naquele
tempo, Jesus subiu para o barco e os discípulos acompanharam-n’O. Entretanto,
levantou-se no mar tão grande tormenta que as ondas cobriam o barco. Jesus
dormia. Aproximaram-se os discípulos e acordaram-n’O, dizendo: «Salva-nos,
Senhor, que estamos perdidos».
Disse-lhes
Jesus: «Porque temeis, homens de pouca fé?». Então levantou-Se, falou
imperiosamente ao vento e ao mar e fez-se grande bonança. Os homens ficaram
admirados e disseram: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe
obedecem?».
Santo
Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
«Meditações»,
cap. 37
««Salva-nos,
Senhor!»
Ó meu Deus, o meu coração é como um vasto mar
agitado pelas tempestades: que ele encontre em Ti a paz e o repouso. Tu
ordenaste aos ventos e o mar que se acalmassem e, à tua voz, eles
apaziguaram-se; vem aPAZiguar o alvoroço do meu coração, para que tudo em mim
se torne calmo e tranquilo, para que Te possa possuir, Tu, o meu único bem, e
Te possa contemplar, suave luz dos meus olhos, sem perturbação nem obscuridade.
Ó meu Deus, que a minha alma, liberta dos pensamentos tumultuosos deste mundo,
«se esconda à sombra das vossas asas» (Sl 16,8). Que encontre junto de Ti um lugar de
renovação e de paz; e, repleta de alegria, possa cantar:
«Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Vós, Senhor, fazeis que eu repouse
em segurança» (Sl 4,9).
Que a minha alma descanse, peço-Te, ó meu Deus,
que descanse da lembrança de tudo o que está sob o céu, que desperte unicamente
para Ti, como está escrito: «Eu durmo, mas o meu coração vela» (Ct 5,2). A
minha alma só está em PAZ e em segurança, ó meu Deus, debaixo das asas da tua
proteção (Sl 90,4). Que ela permaneça eternamente em Ti e que seja abraçada
pelo teu fogo. Que, elevando-se acima de si própria, Te contemple e cante
alegremente os teus louvores. No meio das inquietações que me agitam, que os
teus dons sejam a minha suave consolação, até que eu chegue a Ti, ó verdadeira paz.
. Os discípulos acompanharam Jesus, quando ele
subiu para o barco. O que isso sugere? Podes dizer que acompanha Jesus como seu
discípulo ou é Jesus quem te acompanha? Quem te indica o caminho que tu segues?
. Põe-te diante de Jesus. Deixa-te impulsionar
por este homem a quem o vento e o mar obedecem.
*
Significados:
. Tormenta - tempestade violenta, sobretudo no
mar; temporal, borrasca.
- grande quantidade de
coisas más.
- fig. espécie de agitação
ou estremecimento; abalo.
-dor moral; amargura, ansiedade, sofrimento.
"precisava livrar-se daquela t. gerada
pela perda do filho"
ETIM lat.tar. tormenta, pl. de
tormentum,i 'máquina de atirar projéteis; golpes (da sorte); sofrimento etc.'
* Poesia
Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.
E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor. Fernando Pessoa
Sorriso Interior(Cruz e Souza)
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
Ansiedade (Cruz e Souza)
Esta ansiedade que nos enche o peito
Enche o céu, enche o mar, fecunda a terra.
Ela os germens puríssimos encerra
Do Sentimento límpido, perfeito.
Em jorros cristalinos o direito,
A paz vencendo as convulsões da guerra,
A liberdade que abre as asas e erra
Pelos caminhos do Infinito eleito.
Tudo na mesma ansiedade gira,
Rola no Espaço, dentre a luz suspira
E chora, chora, amargamente chora...
Tudo nos turbilhões da Imensidade
Se confunde na trágica ansiedade
Que almas, estrelas, amplidões devora
Momentos de crise
É demasiadamente fácil atravessar a vida com
liberdade indolente e adormecida, que se assemelha a uma lâmpada sem óleo - uma
lâmpada que não ilumina quando se precisa de luz.
Temos mais necessidade de ter a luz acesa em
nosso espírito pelo Espírito de Jesus quando ouvimos o grito: 'eis o Esposo'. E
Ele vem, não só no fim dos tempos, na Parusia, mas também em momentos
imprevisíveis em nossa vida particular - momentos de crise, quando somos
providencialmente chamados a nos ultrapassar e a nos apressarmos rumo à plena
realização de nosso destino pessoal. Thomas Merton,
O homem novo,
(Agir, 1966), pág. 173-174.)
